O ex-secretário de Justiça e advogado criminalista Emanuel Cacho (PSDB) lançou sua pré-candidatura ao governo de Sergipe com um discurso de ruptura. Em entrevista à Mega FM nesta quarta-feira (29), ele afirmou que o estado é controlado por um grupo restrito de lideranças que, independentemente do governante de plantão, mantém influência sobre os rumos da administração pública.
“De um lado está o governador Fábio Mitidieri, do outro está o ex-governador Belivaldo Chagas. Nós continuamos nas mãos do mesmo grupo, que planeja quem vai para o Tribunal de Contas, quem vai para o Tribunal de Justiça, quem vai presidir a Assembleia Legislativa. O poder todo de Sergipe passa por essas reuniões”, criticou.
Acompanhado dos pré-candidatos a deputado federal Cássio do Bugio e Toni das Feiras, presidente do sindicato dos feirantes, Cacho se apresentou como alternativa à polarização que, segundo ele, opõe dois lados que integram a mesma estrutura de poder.
Trajetória
Filho de caminhoneiro e de uma comerciante, Cacho formou-se em direito, foi defensor público e, em 1991, assumiu a direção da Polícia Civil no governo João Alves Filho. “Peguei uma polícia para estruturar. Organizamos o concurso, fizemos a legislação da corregedoria, conseguimos botar ordem”, recordou.
Entre 2003 e 2006, foi secretário de Justiça do mesmo governador. No período, presidiu o Colégio Nacional de Secretários de Justiça e participou da elaboração de um anteprojeto de Código Penal a convite do Senado Federal. “Talvez eu tenha sido o único sergipano a participar de um grupo daqueles, com ministros e procuradores de todo o país.”
Sobre o sistema penitenciário local, afirmou ter reestruturado as unidades e zerado as fugas. “Nós recapturamos todo mundo. Nunca mais houve fuga. Mas hoje vejo um endurecimento que às vezes ultrapassa o razoável. Defendo a recuperação do ser humano, não só a punição.”
Críticas à gestão atual
O pré-candidato fez críticas à aplicação de emendas parlamentares. “A rodovia que vai para Itabaiana e o sertão não é duplicada, mas tem 60 dias de forró. Haja dinheiro. Enquanto o povo sofre na estrada com acidentes e mortes, bota emenda para contratar banda de R$ 2 milhões. Não tem economia que suporte 60 dias de festa.”
Cacho comparou a infraestrutura rodoviária de Sergipe à de estados vizinhos. “Você sai de Maceió para Arapiraca e a pista é duplicada. Recife a Caruaru, duplicada há mais de dez anos. João Pessoa a Campina Grande, duplicada. Todos os estados do Nordeste fizeram o dever de casa. Só Sergipe não tem.”
Ele também criticou a crise hídrica e a atuação da concessionária Iguá Saneamento. “As tubulações estão estourando por toda a capital. Agora falam em sabotagem. Se houve sabotagem, então houve 20 sabotagens. A acusação é contra a prefeitura? Quem teria interesse senão um adversário político? É preciso parar de usar o marketing para esconder o problema.”
Propostas
Cacho prometeu que, se eleito, seu primeiro ato será pedir aos parlamentares que direcionem emendas para concluir obras de infraestrutura. “Presidente da República vem aqui, o Exército aparece com as máquinas e depois some. Obra nova não vai ter enquanto não acabar as antigas. Empresa que descumprir cronograma não trabalha mais no estado.”
Na área tributária, defendeu redução da taxa de esgoto. “Chega a 80% do valor da conta de água. Eu baixaria para 50%.” Sobre a escassez hídrica, afirmou que a solução definitiva passa pelo Canal do Xingó. “A barragem foi feita com duas bocas para Alagoas e duas para Sergipe. As de Alagoas já estão funcionando. As nossas, não. Com pouco dinheiro a gente resolve. É inexplicável.”
8 de janeiro e o Judiciário
Advogado de réus do 8 de janeiro, Cacho voltou a classificar as condenações como desproporcionais. “Aquilo não foi tentativa de golpe. Não se faz justiça com vingança. Vi pessoas que só protestaram terem a vida destruída por penas de 14 anos. Uma mulher, mãe de duas crianças, pegou 14 anos por ter pichado uma estátua. Um rapaz se mudou para os Estados Unidos porque disse que não viveria mais num país assim. Isso é violação de direitos humanos. Vai ficar marcado na história.”
O pré-candidato afirmou que sua entrada na disputa busca resgatar o diálogo e superar a divisão política que, em suas palavras, “impediu minha família de se reunir por quatro anos”. “Quem defende a família, a união, não quer guerra. O 45 voltou. Peço que olhem o projeto. Minha palavra é minha convicção”, concluiu.